Tradições e preconceitos dos fariseus.

Nós, pessoas religiosas, temos a tendência de fazer julgamentos rápidos fundamentados nas aparências (veja lSm 16.7). Os vigilantes fariseus faziam a mesma coisa. Eles fizeram a seguinte pergunta aos discípulos:

“Por que come o vosso Mestre com publicanos e pecadores?” (Mt 9.11).

Essa pergunta refletia uma série de tradições e preconceitos que os fariseus haviam adquirido. Consideremos alguns deles.

Tradições e preconceitos dos fariseus.

Por trás dessa pergunta não havia apenas preconceito, mas aparentemente uma razão teológica bem fundamentada para se oporem às ações de Jesus. Os fariseus, no âmago de sua fé, buscavam santidade e queriam evitar a contaminação. Eles se entregaram à busca da justiça (Lc 18.11,12). Eles prestaram atenção cuidadosa à pureza e à contaminação, seguindo uma seção inteira da Mishnah devotada ao tópico (a sexta divisão de Tohoroth era intitulada “Purificações”). A contaminação exigia um ritual de purificação e impedia que os judeus participassem de algumas atividades religiosas. Evita-se a contaminação a todo custo. (Talvez o medo da contaminação tenha impedido o sacerdote e o levita de ajudar o homem à beira da estrada na parábola do bom samaritano [Lc 10.25-37].)

Mateus 15.1-20, o principal texto do evangelho sobre contaminação, deixa implícito que a visão dos fariseus sobre esse assunto era ambiental e externa. Ou seja, a contaminação era essencialmente um produto do que entrava na boca de alguém, os lugares que alguém frequentava e com quem alguém entrava em contato. A contaminação acontecia mediante o contato com pessoas pecadoras. Ela poderia ser removida. Portanto, a presença de Jesus na festa de Mateus necessariamente implicava contaminação.

cegueira espiritual tradicao 1 - aguas do marOs fariseus buscavam evitar não só o mal, mas também a aparência do mal. Eles cuidavam muitíssimo não só para ser justos, mas também para aparentar ser justos (Mt 6.1-18). Embora pudessem mostrar indignação diante da sugestão de que “a imagem é tudo”, viviam como se a imagem fosse importante. Além disso, os fariseus se esforçavam para manter suas atividades sociais puras não só ao evitar algumas pessoas e lugares, mas também ao se associar com pessoas que pensavam de forma semelhante. Uma boa forma de evitar a contaminação por contato é preencher a vida social com “bons” amigos. Um “aglomerado santo” é uma maneira eficaz de evitar a mundanidade, pensavam eles.

Como os fariseus devotaram muito tempo ao prazer da doce companhia de camaradas que pensavam da mesma forma, eles provavelmente não tinham nem o tempo nem a inclinação para sair por aí buscando os perdidos. John R. W. Stott sugere que os fariseus, e nós também, somos apenas preguiçosos e egoístas. Sentimos indiferença pelo mundo porque “não queremos nos envolver em sua dor ou sujeira” (Nota 2). Ao contrário, uma abordagem comum das pessoas religiosas às pessoas irreligiosas é chamá-las para limpar a vida que levam e, depois, para que se juntem a nós.

Muitas pessoas compreendem Deus de forma equivocada, acreditando que ele, fundamentalmente, despreza os pecadores e prefere vê-los sofrer por causa de seus pecados. Jesus, no entanto, aceitou os pecadores exatamente como eram, foi a eles e mostrou graça e verdade em suas palavras e ações.

Acredito que a pergunta dos fariseus para Jesus também reflete um pouco de justiça própria. Eles, em sua maioria, eram cegos para a própria pecaminosidade, convencendo a si mesmos que eram obedientes à Lei e, portanto, agradavam a Deus. Eles esperavam recompensas, enquanto os pecadores mereciam a condenação de Deus e as consequências dolorosas dessa condenação.

tradicao e contaminação 5 - aguas do marAlgumas vezes, temos a mesma atitude que os fariseus. Tememos que os ambientes comprometedores nos contaminem e também nos preocupamos, de forma vital, com o que os outros pensarão de nós. Mascaramos essas preocupações sob o manto do evitar “a aparência do mal” e o da preocupação com “nossos irmãos mais fracos”. No entanto, construímos de maneira equivocada os ensinamentos de Deus e perdemos o equilíbrio que o Senhor pede que tenhamos. Além disso, compramos a seguinte filosofia de ministério: “Limpe suas atitudes e venha”.

Cuidando espiritualmente do doente

Ninguém foi tão claro ao seu chamado quanto Jesus. Ele fez o que fez, tolerou a censura com a qual se defrontou, violou as tradições da forma que agiu só porque tinha razões claras e divinas para as suas ações. Dois breves versículos em Mateus 9 apresentam poderosamente três razões para a mundanidade de Jesus.

#1 – Ele se preocupava com os feridos espiritualmente.

Jesus empregou uma afirmação proverbial, derivada da cultura em que estava inserido, para explicar suas ações: “Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos” (v. 12). Esse é um simples truísmo, afirmar que os médicos estão na atividade de ajudar os doentes e frequentam lugares onde pessoas doentes se congregam. E Jesus era o cirurgião magistral da alma! As necessidades das pessoas espiritualmente doentes impeliram Jesus a cuidar delas, mesmo correndo o risco de contaminação.

#2 – A compaixão pelas pessoas era a prioridade de Deus.

Jesus cita Oséias 6.6 (também citado em Mt 12.7), para explicar sua associação com os publicanos, ou coletores de impostos, e pecadores: “Misericórdia quero, e não sacrifício” (13a). Novamente uma aresta afiada é detectada à medida que o pregador itinerante sem treinamento diz aos estudiosos da época que tinham doutorado em teologia para que voltassem à Bíblia.

O livro de Oséias é um poderoso tratado do amor e do perdão incondicionais de Deus para seu povo de Israel que se desviara, demonstrado na vida de Oséias e Gomer. Na época de Oséias, no século 8 a.C., Israel estava praticando os rituais e as práticas prescritos. Entretanto, a injustiça, a imoralidade e a indiferença à necessidade das pessoas caracterizavam a prática deles. Embora eles continuassem no abrigo da religião, haviam perdido o foco. Jesus deixou claro que Deus está mais interessado em ações compassivas que em atos religiosos.

#3 – Ele se envolveu com as pessoas do mundo para cumprir sua missão.

“Porque eu não vim chamar justos, mas pecadores” (v. 13b).

Portanto, é lógico que não focaria os “justos” em seu ministério. Talvez, mais uma vez Jesus, de forma irônica, deixou implícito que os fariseus eram justos. Certamente, essa era a maneira que eles viam a si mesmos por causa de sua busca zelosa por uma vida religiosamente disciplinada. No entanto, Jesus, pela própria natureza de seu chamado, não devotaria e não poderia dedicar seu ministério àqueles que não sentiam que precisavam do que ele tinha a oferecer.

fariseus caracteristicas louvaveis 3 - aguas do marPara mim, parece que devemos ter exatamente esses mesmos três motivos para alcançar os perdidos, até mesmo pagando o preço de quebrar tradições e de fazer novas ondas. A necessidade de nossa cultura obviamente é enorme. Deus dá mais valor a nossa tentativa compassiva de alcançar os outros que a nossa atividade religiosa compulsiva. E nós, como Jesus, somos chamados para os perdidos. Os que estão doentes por causa do pecado são inúmeros, mas os médicos são poucos (Mt 9.37). Muitas vezes, nós nos afastamos dos pecadores e praticamos o evangelismo do: “Venha”, em vez daquele do: “Ide”. Antes, devemos encarnar as atitudes encantadoras de Jesus. Precisamos entender o coração de Deus e seu chamado.

Bill Hybels, pastor da grande igreja Willow Creek Community, no subúrbio de Chicago, lembra a sua audiência:

“Vocês jamais colocaram os olhos em alguém que não seja importante para Deus”.

A igreja, algumas vezes, recebe críticas por seus programas e suas abordagens que são agradáveis para os que buscam, mas poucos negam que a liderança e as pessoas amam os perdidos. Esse motivo está no coração do pastor e é demonstrado em todas as facetas do ministério. Se soubermos por que fazemos algo, o que geralmente vem a seguir e os por que não são respondidos.


Notas

1 –  Pippert, Rebecca Manley. Out of the salt-shaker. Downers Grove, III.: InterVarsity, 1979, p. 24.
2 –  Stott, John R. W. Christ the controversialist. Downers Grove, 111.: InterVarsity, 1976, p. 189.

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Casado com Priscila Reis com quem tem 3 lindos filhos. Cristão, Economista. Gosto de música, viagens, e de ler. Saiba mais AQUI.

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