E quanto ao cânon?

Ao considerarmos a maneira como a Bíblia foi escrita e o quanto ela é confiável, logo surge a questão da autoridade. Quem decidiu quais livros deveriam ser incluídos na Bíblia como a Palavra de Deus revelada? Por que deveríamos acatar essa decisão? Já ouvi esta objeção feita da seguinte forma:

“Centenas de anos após os acontecimentos, um grupo de homens se reuniu e decidiu quais livros deveriam fazer parte do conteúdo da Bíblia. Por que eu devo aceitar isso?”

No mundo pós-moderno em que vivemos, em que os assuntos relacionados à autoridade e ao poder estão intimamente ligados à questão do significado, o processo de compilação de um texto é cada vez mais importante.

o canon 1 - aguas do mar

Antes, porém, precisamos definir os termos. A palavra “cânon” vem da palavra grega kanon, que significa “caniço”. O caniço era usado como vara para medir, estabelecendo um padrão ou um ponto fixo de medida. A palavra “cânon” aplicada à Escritura significa “um conjunto limitado e definido de escritos aceito oficialmente pela Igreja Cristã”.’ Quer dizer então que alguns homens decidiram aleatoriamente quais livros deveriam fazer parte da Bíblia?

O cânon do Novo Testamento

O Novo Testamento é composto por 27 livros, muitos dos quais foram escritos na forma de cartas enviadas pelos apóstolos a diferentes congregações da igreja primitiva. Inclui também
quatro evangelhos, que são textos históricos baseados no relato de testemunhas oculares dos acontecimentos que envolveram a vida, morte e ressurreição da pessoa histórica de Jesus Cristo. O livro de Atos dos Apóstolos é um relato histórico do começo da igreja, contando detalhes das vidas e das viagens dos primeiros apóstolos, bem como da expansão do cristianismo pelo mundo.

O livro do Apocalipse narra uma intrigante visão que o apóstolo João teve quando estava exilado na ilha de Patmos, já no final de sua vida. Durante o período apostólico a igreja cresceu rapidamente e se espalhou por todo o mundo mediterrâneo. Nos primeiros quatro séculos do cristianismo a igreja floresceu pela Europa, Ásia e África. Os diversos livros do Novo Testamento, em sua forma atual, foram copiados e reproduzidos durante o período de expansão da igreja. Esse costume foi incentivado pelos próprios escritores do Novo Testamento — Paulo pediu aos colossenses que providenciassem para que a igreja de Laodicéia também lesse sua carta (Cl 4.16), e insistiu com os tessalonicenses para que

“esta epístola seja lida a todos os irmãos” (lTs 5.27).

Os registros mais antigos revelam que por onde a igreja se espalhava, o conteúdo do Novo Testamento era conhecido e reproduzido, o que significa que um cristão podia viajar de Roma para Alexandria ou de Alexandria para Éfeso e ser saudado como irmão ou irmã. As cartas eram o meio de comunicação entre as igrejas distantes. Existem muitos exemplos de cartas deste tipo: Clemente de Roma escreveu à igreja em Corinto e Inácio escreveu para várias igrejas às vésperas de seu martírio. A ampla circulação do Novo Testamento e o crescente número de igrejas envolvidas na leitura e na propagação do Evangelho agiram como proteção contra a falsificação ou fraude, pois qualquer intruso teria que convencer um grande número de pessoas ao longo de uma vasta região geográfica.

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As igrejas preservaram os escritos dos apóstolos e os evangelhos desde a época em que foram escritos. A divulgação e a reprodução desses escritos entre as igrejas permitiram que elas mesmas exercessem controle entre si, dificultando a ocorrência de fraudes. A comunhão entre as diferentes igrejas significava que erros e fraudes podiam ser prevenidos. A tradição dos manuscritos do Novo Testamento está preservada em grande quantidade em diversos lugares ao redor do mundo. Diferentes correntes de manuscritos chegaram até nós desde a época em que os eventos foram escritos, preservados em diferentes idiomas — da mesma forma que o texto do Novo Testamento, com diferenças mínimas de ortografia e eventualmente alguma palavra diferente.

A abundância de material manuscrito estabelece um testemunho independente para o mesmo texto, encontrado em diferentes partes do mundo. Os livros canônicos do Novo Testamento foram preservados desta maneira, existindo versões em latim, grego, siríaco, copta, saídico, árabe, etíope, armênio e muitas outras línguas. Dessa forma, os livros do Novo Testamento foram amplamente divulgados através das igrejas espalhadas pelo mundo e semanalmente eram lidos trechos diferentes durante as reuniões realizadas em cada igreja. Justino Mártir (110-165 d.C.) escreveu:

No dia chamado domingo todos os que vivem na cidade ou no campo se reúnem em um determinado lugar para ler as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo lhes permite […].

Tudo indica que os cristãos começaram a reunir os escritos dos apóstolos e evangelistas desde o começo da igreja, reconhecendo- os como documentos oficiais e bíblicos. Ao final do primeiro século depois de Cristo, Clemente, bispo de Roma, escreveu à igreja em Corinto e citou uma carta de Paulo aos coríntios, conferindo-lhe a mesma autoridade intrínseca ao Antigo Testamento. Justino Mártir, ao citar os evangelhos, começava com as seguintes palavras: “Está escrito”, reconhecendo neles a autoridade bíblica.

Os escritos dos primeiros pais da igreja referiam-se aos livros do Novo Testamento como Escritura já no começo da igreja. Eusébio (que nasceu no ano 270 d.C.) menciona vários livros do Novo Testamento, dividindo-os em três categorias:

1 – Livros universalmente reconhecidos (homolegoumena) como bíblicos.
2 – Livros cujo status bíblico era questionado por alguns (antilegoumena).
3 – Livros que deveriam ser rejeitados como falsos (notha).

A segunda categoria é interessante porque inclui os livros de Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse, questionados por alguns. Apocalipse é um caso à parte, pois enquanto muitos o consideravam universalmente aceito, as igrejas orientais questionavam a sua autoridade. Porém, todos os demais livros do Novo Testamento se encaixavam em uma única categoria: universalmente reconhecidos como bíblicos. Eusébio menciona alguns livros heréticos reconhecidos pela igreja como falsos e cita obras como O Pastor, de Hermas e A Epístola de Barnabé.

Mas o importante é que, de acordo com esta perspectiva, a maior parte do Novo Testamento foi reconhecida por todas as igrejas como oficial e bíblica. É preciso assinalar que mesmo constando dos escritos dos pais da igreja, esses livros não passaram a ser considerados pelos cristãos como “oficialmente bíblicos”. O fato de um indivíduo como Eusébio declará-los bíblicos não decretava que eles assim o fossem. Os evangelhos e todos os outros homolegoumena foram reconhecidos por todos. Um estudioso fez um comentário bastante proveitoso:
O reconhecimento da autoridade bíblica dos livros do Novo Testamento foi um processo extraordinariamente natural, e não uma questão de regulamentação eclesiástica.

O cerne do Novo Testamento foi reconhecido desde o começo, de modo que as determinações subseqüentes não fizeram mais que confirmar o óbvio. ‘Sempre que surgiam dúvidas, elas eram tratadas abertamente. A carta de Tiago, por exemplo, despertou dúvidas quanto à sua autoria, mas havia fortes razões para se acreditar que ela teria sido escrita por Tiago, filho de Zebedeu ou por Tiago, irmão de Jesus, ambos apóstolos na igreja do Novo Testamento. Um motivo a mais a favor da carta de Tiago é sua inclusão na versão siríaca, uma vez que a igreja da Síria situava-se na fronteira com a Palestina onde Tiago, o irmão de Jesus, foi bispo. Eusébio relata que a epístola foi amplamente reconhecida pela maioria dos cristãos. A epístola aos Hebreus também suscitou algumas dúvidas quanto à sua autoria, mas foi incluída no cânon siríaco, mencionada por muitos pais da igreja e citada em concílios, até que finalmente foi incluída no cânon.

o canon 3 - aguas do mar

De modo geral, os livros do Novo Testamento foram aceitos naturalmente pela igreja a partir do momento em que foram escritos pelos apóstolos e evangelistas. Os livros que suscitaram dúvidas não foram aceitos ou rejeitados por ordem exclusiva de um grupo de homens poderosos, mas por um consenso dentro da própria igreja, reconhecendo ou rejeitando sua autoridade bíblica. Atanásio, um dos pais da igreja, ao escrever para o clero em 367 depois de Cristo, cita uma lista de livros inspirados, idêntica ao nosso cânon: (Nota 4).

Não me canso de falar novamente sobre os livros do Novo Testamento. Temos os quatro evangelhos, escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João. A seguir o livro de Atos dos Apóstolos e as sete epístolas (chamadas católicas): uma de Tiago, duas de Pedro, três de João, e por fim, uma de Judas. Temos também quatorze epístolas de Paulo, escritas nesta ordem: a primeira aos Romanos, em seguida duas aos Coríntios, e depois as cartas aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses e duas aos Tessalonicenses. Temos então a carta aos Hebreus, e novamente duas epístolas de Paulo a Timóteo, uma a Tito e, finalmente, a Filemom. Após todas estas cartas, temos o Apocalipse de João […].

Sempre qüe surgem questões quanto ao cânon, é importante lembrar que a igreja não escolheu os livros que fariam parte do cânon, ela apenas reconheceu a inspiração divina de certos livros. Vimos que a inspiração dos 27 livros do Novo Testamento já era praticamente aceita pela igreja primitiva. Quando os líderes da igreja se reuniram no concílio da cidade de Hipona, em 393 depois de Cristo, e depois em Cartago, em 397, eles apenas confirmaram o cânon e atacaram as heresias e perseguições que começavam a surgir. Como F. F. Bruce escreveu:

Quando pelo menos um concílio da igreja — o sínodo de Hipona, em 393 depois de Cristo — apresentou a lista com os 27 livros do Novo Testamento, não concedeu a esses livros uma autoridade que eles já não tivessem, mas apenas registrou seu caráter canônico previamente estabelecido.’

Um dos motivos que levou a igreja a convocar esse concílio foi o surgimento de um grande número de heresias devido ao longo tempo transcorrido desde que o Novo Testamento havia
sido escrito. A heresia mais séria veio de Marcião, que viveu por volta de 140 depois de Cristo. Ele fez uma separação entre um Deus criador, inferior, do Antigo Testamento, e Deus, o Pai, revelado em Cristo, argumentando que a igreja deveria rejeitar tudo o que dizia respeito ao primeiro. Ele pretendia eliminar qualquer referência ao judaísmo na Bíblia. Quando esta e outras heresias começaram a representar um sério desafio à igreja, tornou-se importante para a igreja estabelecer parâmetros explícitos para sua atuação.

Continua em: O Cânon ou a formação do Antigo Testamento.


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Casado com Priscila Reis com quem tem 3 lindos filhos. Cristão, Economista. Gosto de música, viagens, e de ler. Saiba mais AQUI.

2 COMMENTS

  1. A Igreja Católica, inspirada pelo Espírito Santo, reconheceu a legitimidade dos livros que formam o Cânon. A história registra isso. Negar é querer reescrever a verdade. Agradeçamos, portanto, nós cristãos, sejam os Católicos ou protestantes, a Deus ter deixado Sua Santa Igreja (Tu és Pedra e sobre ela edificarei minha Igreja) para guardar a Sua Santa Palavra. Amém.

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