Causalidade: O que é este princípio?

O princípio da causalidade afirma que todo evento tem uma causa adequada. Esse princípio é firmemente acoplado com a busca de explicações e, mesmo as coisas simples que observamos, como as cores do arco-íris, por exemplo, devem ter uma causa. Logo, quando queremos explicação para o aparecimento do arco-íris, estamos na verdade procurando a causa dele.

Além disso, quando procuramos a causa de um evento, há alguns tipos de causas que podem ser isoladas. Na ilustração podemos observar dois tipos de causas: uma causa secundária (ou instrumental) e a causa primária (eficiente). Isaac Newton foi o primeiro a usar um prisma para revelar que a luz solar pode-se dividir e, com isso, produzir um espectro de cores. O espectro de cores que emana do prisma é o efeito que observamos da luz passando através dele. O efeito — o espectro de cores — tem uma causa secundária (instrumental), o prisma. Contudo, também tem uma causa primária (primeira), a luz solar. A cor é inerente à luz solar (causa primária), e o prisma é a causa instrumental (causa secundária) pela qual a luz se dispersa. Tecnicamente, entretanto, o sol é causado e, portanto, precedido de energia, de modo que a questão última a ser respondida é: “O suprimento de energia do universo é infinito e, portanto, sempre existiu, ou é finito e por isso certamente teve um começo?” Em outras palavras, “A energia é a causa, primeira de todo o universo, ou há uma causa anterior a ela?”.

causa e efeito causalidade 4 - aguas do marAntes de empregar o princípio da causalidade para responder a essa pergunta, precisamos verificar sua credibilidade, visto que é o primeiro princípio da ciência. Devemos nos recordar também de que o princípio da causalidade é filosófico por natureza e, como tal, afirma que para todo efeito deve haver uma condição necessária e suficiente. Os efeitos não ocorrem sem causas. Isso vale para tudo o que é finito e vem à existência, até o universo. O pai da ciência moderna, Francis Bacon (1561-1626), disse: ““O verdadeiro conhecimento é o conhecimento das causas” (Nota 1). Se o universo é finito e teve um começo, então precisa ter uma causa — se o princípio da causalidade é um princípio válido. Uma imperfeição no princípio da causalidade seria equivalente a um colapso fatal no fundamento da ciência.

O Princípio da Causalidade é confiável?

David Hume (1711-1776) era um cético que cria que todo conhecimento vem através dos cinco sentidos. A associação causal, segundo Hume, não é de uma coisa causada por outra, é de uma coisa seguida por outra. Ele declarou que nossa crença acerca da causalidade é baseada na experiência, que é baseada no costume, que depende de conjunções repetidas, são associações causais observadas (Nota 2). Devemos observar, contudo, que Hume não negou realmente o princípio da causalidade em si. Antes, desafiou a base que alguns tinham para afirmar esse princípio. Também declarou a incerteza de saber quais causas precedentes são causas de quais efeitos. Por exemplo, podemos verificar que B segue A (A, B) mas, não podemos verificar A causando B (A—>B). Hume acreditava que podemos conhecer apenas as conjunções habituais, ou relações, em vez das associações causais reais.

Causalidade causando…

Hume não disse que não há nenhum causa para um efeito. Disse que não podemos ter certeza de qual causa provoca qual efeito. Vemos eventos relacionais de rotina acontecer constantemente, mas não observamos o que na realidade os causa. Por exemplo, o sol levanta-se regularmente após o canto do galo, mas por certo não porque o galo canta. Conseqüentemente, Hume argumentou pela suspensão de todos os julgamentos acerca das associações causais reais. Repetimos, Hume, com efeito, acreditava que há uma associação causal. Ele até foi longe ao dizer que é “absurdo” negar o princípio da causalidade (Nota 3):

“Jamais fiz uma proposição tão absurda como essa, que qualquer coisa pode surgir sem nenhuma causa”.

Nossa resposta a Hume e a outros que sustentam a mesma posição concentra-se na certeza desse tipo de ceticismo. Dito de modo simples, está-se pedindo que não tenhamos certeza de nada da realidade? Se for isso, então não se nos pede para suspender o julgamento a respeito de toda visão da realidade, exceto esta?

causa e efeito causalidade 2 - aguas do marTalvez devamos, pelo contrário, ser céticos com respeito ao ceticismo. Além disso, não é um julgamento a respeito da realidade dizer que todos os julgamentos a respeito da realidade devem ser suspensos? A verdade é que Hume presumiu causalidade em todo o seu argumento. De fato, sua própria negação da causalidade implica uma associação causal necessária em seu processo de raciocínio. De outra forma, como poderia ter sabido com certeza que suas conclusões estavam corretas? Sem presumir uma base (causa) necessária, sua negação é sem sentido. Também postulou implicitamente que seu argumento (a causa) pode ser usado para convencer aqueles que crêem em associações causais a se tornarem céticos como ele próprio (efeito), ou por que se importar em escrever livros? Por essas razões, podemos dizer que as afirmações de Hume são auto-anuláveis.

A Física Quântica refuta a Causalidade?

Alguns cientistas argumentam que o princípio da causalidade não é válido à luz da moderna física quântica. Dizem que o princípio da causalidade se rompe no nível subatômico da realidade e citam o princípio da incerteza de Heisenberg como a base de sua opinião (Nota 4). Portanto, de acordo com esses cientistas, se a causalidade não existe no nível mais fundamental da realidade (o nível subatômico), ele deve ser igualmente inexistente em todos os outros níveis. Em outras palavras, se a causalidade não existe no menor nível da realidade, por que deveria existir no nível maior — a causa do universo?

Num debate com um teísta, Bertrand Russell (1872-1970) comentou a relação entre o princípio da incerteza e a aplicação da causalidade à origem do universo. Disse:

Não vejo nenhuma razão qualquer que seja para supor que o todo [universo] tenha alguma causa […] O conceito de causa não é aplicável ao todo [universo] […] Devo dizer que o universo está aí, e isso é tudo […] Não quero parecer arrogante, mas de fato me parece que eu consigo conceber coisas que você diz que a mente humana não consegue conceber (Nota 5).

Quanto às coisas não terem causa, os físicos nos asseguram que as transições quânticas individuais nos átomos não têm nenhuma causa.

Diante disso, pode-se pensar à primeira vista que o princípio da causalidade deve ser suspenso. Entretanto, o princípio da incerteza não destrona o princípio da causalidade. Se o fizesse, seria auto-anulável. Se o princípio da causalidade não fosse válido, todas as conclusões científicas seriam questionáveis, visto que a causalidade é fundamental para a disciplina ciência. Como a física quântica é parte da ciência, ela também deve enquadrar-se nessa categoria, pois como pode ser isso, que a única vez que a ciência pode ter certeza de suas conclusões é nos experimentos que confirmam a incerteza? Parece-nos que esses cientistas se equivocaram na interpretação do princípio da incerteza e na sua aplicação, que basicamente afirma que a posição e o momento de uma partícula subatômica não podem ser determinados simultaneamente (Nota 6). Em Truth in religion (Verdade em religião), de Mortimer J. Adler há um capítulo intitulado “A realidade em relação à teoria quântica”. Os parágrafos seguintes são relevantes para o nosso aprendizado.

E logicamente necessário ter em mente um ponto que os físicos quânticos parecem esquecer ou fazer vista grossa quanto a ele. Na mesma época em que o princípio da incerteza de Heisenberg foi estabelecido, os físicos quânticos reconheceram que as medições experimentais intrusivas que forneciam os dados usados nas formulações matemáticas da teoria quântica conferiram aos objetos e eventos subatômicos seu caráter indeterminado […] Deus sabe a resposta, como declarou Einstein no início de sua polêmica com Bohr quando disse que Deus não joga dados, o que implicava que a realidade subatômica não-examinada é uma realidade determinada […]. Se Deus conhece ou não a resposta, a ciência experimental não sabe. Nem tampouco a filosofia sabe com certeza.

Mas pode dar uma boa razão para pensar que a realidade subatômica é intrinsecamente determinada. A razão é que os teóricos da física quântica reconhecem mais de uma vez que suas medições intrusivas e perturbadoras são a causa da indeterminação que eles atribuem aos objetos e eventos subatômicos. Segue, portanto, que a indeterminação não pode ser intrínseca à realidade subatômica […]

Einstein estava certo quanto à teoria quântica ser uma narrativa inconclusa da realidade subatômica. Mas estava errado em pensar que a inconclusão podia ser remediada por meios à disposição da ciência. Por quê? Porque a questão a que a teoria quântica e a pesquisa subatômica não podem responder é uma questão para a filosofia, não para a ciência (Nota 7).

Os cientistas fariam bem em se lembrar de que o princípio da incerteza é baseado na validade do princípio da causalidade. É auto-anulável crer que o princípio da causalidade não é confiável com base no princípio da incerteza, pois a causalidade, como demonstramos, é pré-condição necessária para revelar o princípio da incerteza. Conseqüentemente, o princípio da causalidade é filosoficamente sólido e permanece firme como o primeiro princípio da ciência.

causa e efeito causalidade 3 - aguas do marPodemos dizer com confiança, portanto, que o princípio da causalidade é um princípio válido para aplicar tanto quando observamos o espaço interior (e.g., o funcionamento de um átomo) como quando observamos o espaço exterior {e.g., o funcionamento do universo).

Tendo comprovado sua confiabilidade, queremos agora saber se o princípio da causalidade é aplicável à existência provável de uma Causa Primeira muito além do universo espaço-tempo. Em outras palavras, pode o princípio da causalidade responder à questão concernente à realidade da existência de Deus?


Notas

1- Novum organum, p. 121.

2- An enquiry concerning human understanding, p. 43. Publicado em português com o título Investigação sobre o entendimento humano.

3- The letters of David Hume, org. J. Y. T. Grieg, 1:187.

4- O princípio da incerteza, ou princípio da indeterminação, refere-se à restrição da precisão ao medir partículas subatômicas. Ninguém pode determinar simultânea e precisamente a posição (localização) e o momento (velocidade) de um elétron.

5- “John Hick, The existence ofGod, p. 175-6.

6- O princípio da incerteza não deve ser entendido como o princípio da não-causalidade nem confundido com ele, no que diz respeito aos efeitos que ocorrem sem causas.

7- Truth in religion, p. 93-100.

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Casado com Priscila Reis com quem tem 3 lindos filhos. Cristão, Economista. Gosto de música, viagens, e de ler. Saiba mais AQUI.

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