As coisas melhores de conhecer são os primeiros princípios e as causas. Pois deles e por meio deles podem-se conhecer todas as outras coisas.
—Aristóteles

Ciência e questão de fé?

Muitos acreditam que só o que é cientificamente verificável é verdadeiro. Infelizmente, nenhum experimento científico pode averiguar essa asserção, pois é uma declaração de natureza filosófica, não científica. Além disso, a ciência se baseia na lógica, e nenhum experimento científico pode verificar a lógica. Ao contrário, pressupõe-se que a lógica é um componente válido do método científico. Logo, antes de aplicar o método científico, precisamos entender o fundamento sobre o qual a disciplina da ciência repousa.


A palavra ciência literalmente significa “conhecimento”. Origina-se do verbo latino seio (“saber”*). Entretanto, a ciência pressupõe uma certa ordem interdependente de conhecimento, e ignorar essa ordem ou abusar dela pode levar a inferências e conclusões altamente questionáveis no que se refere à realidade. Precisamos ter consciência de que a disciplina ciência baseia-se em certos primeiros princípios e hipóteses estabelecidos na filosofia. Essas hipóteses (ou pressupostos) são de natureza metafísicas (Nota 2) e têm prioridade sobre toda investigação científica. Um filósofo da ciência resume (Nota 3):

ciencia fe 2 - aguas do mar

A filosofia funciona como o cimento armado da ciência fornecendo-lhe suas pressuposições. A ciência (pelo menos como a maioria dos cientistas e filósofos a entende) presume que o universo é inteligível, e não caprichoso, que a mente e os sentidos nos informam acerca da realidade, que a matemática e a linguagem podem ser aplicadas ao mundo, que o conhecimento é possível e que há uma uniformidade na natureza que justifica as inferências indutivas do passado sobre o futuro e dos casos examinados, como o dos elétrons, por exemplo, sobre os casos não-examinados, e assim por diante […] Todas essas pressuposições são filosóficas por natureza.

Qual é a justificativa lógica para essas suposições metafísicas da ciência? Os nossos pensamentos são meramente um produto de reações químicas do cérebro? Se a razão e a lógica são em última análise redutíveis a puras reações químicas, como decidir entre a lógica boa e a má? Que suposições são razoáveis e quais não são? G. K. Chesterton observou que sem alguma base para raciocinar, o processo de raciocínio seria um mero ato de fé (Nota 4):

É um ato de fé asseverar que os nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade. Se você simplesmente é cético, deve, mais cedo ou mais tarde, fazer-se a seguinte pergunta: “Por que uma coisa está certa; a observação e a dedução? Por que a boa lógica não pode ser tão enganosa quanto a má lógica? Ambas são movimentos no cérebro de um chimpanzé confuso”.

ciencia fe 3 - aguas do marJá confirmamos que os primeiros princípios são verdadeiros por auto-evidência. Estão além de toda prova direta. Os primeiros princípios não precisam de mais justificações; se precisassem, o processo de justificação teria de continuar indefinidamente. Conseqüentemente, devemos voltar a algum ponto de partida como base para a própria razão. Se não, acabaremos tentando justificar toda justificativa e explicar toda explicação. C. S. Lewis nos dá uma ilustração clara do absurdo dessa tarefa (Nota 5):

Não se pode continuar “explicando” indefinidamente: acaba-se descobrindo que se explicou a própria explicação. Não se pode continuar “enxergando através” das coisas para sempre. O problema todo de ver através de uma coisa é ver uma coisa através dela. E bom que a janela seja transparente, porque a rua ou o jardim do outro lado é opaca. E se se enxergasse através do jardim também? Não adianta tentar “enxergar através” dos primeiros princípios. Se se enxerga através de tudo, então tudo é transparente. Mas um mundo transparente é um mundo invisível. “Enxergar através” de todas as coisas é o mesmo que não enxergar nada.

Em última análise, os primeiros princípios do pensamento só têm justificativa racional se houver uma Mente que forneça a base para a existência deles. Como tão habilmente afirma Lewis (Nota 6):

A razão de alguém foi levada a ver coisas com a ajuda da de outro, e não perdeu nada com isso. Continua então em aberto a questão se a razão de cada indivíduo existe absolutamente de si mesma ou resulta de alguma causa (racional) — isto é, de alguma outra razão. Essa outra razão poderia provavelmente depender de uma terceira, e assim por diante. Não importa até que ponto este processo continuasse desde que você descobrisse a razão originando-se na razão a cada estágio. Somente quando somos solicitados a crer na razão surgida da não-razão é que devemos fazer uma pausa, pois, se não fizermos isso, todo pensamento será posto em dúvida. Fica portanto evidenciado que mais cedo ou mais tarde você deve admitir uma razão que exista absolutamente de si mesma. O problema está em você ou eu podermos ser uma tal razão auto-existente.

O próprio fato de que a lógica pode ser válida ou inválida pressupõe um padrão de lógica que vai além do pensamento humano. Conseqüentemente, para que a ciência seja sólida, ela deve manter a fé que tem na razão, e o raciocínio correto logicamente depende da existência de uma entidade pensante (Deus). Portanto, essa entidade necessariamente deve ser a causa primária ou base racional para todos os primeiros princípios, entre eles as hipóteses científicas. Uma vez que a pesquisa científica não é isolada das hipóteses filosóficas, é preciso examinar essas hipóteses para verificar se são válidas. O princípio primeiro da ciência é um pressuposto filosófico sobre o qual a disciplina ciência repousa: é conhecido por princípio da causalidade.

Continua…


Notas

A resposta a pergunta-título foi inicialmente apresentada num artigo de Peter Bochino, intitulado Keep the faith. O artigo aparecia com o nome Just thinking num comunicado da primavera de 1996, distribuído por Ravi Zacharias International Ministries.

*Scio (scire), em latim clássico, significa saber. O verbo “saber” do português deriva de sapere, “ter sabor” (N. da E).
2 – Adjetivo “metafísico” vem de uma palavra grega que significa “além da física”. A metafísica trata daquilo que é real, do que existe.
3 – J. P. Moreland, Christianity and the nature of Science, p. 45.
4 – Orthodoxy, p. 33. Publicado em português com o título Ortodoxia.
5 – The abolition ofman, p. 91.
6 – Milagres, p. 27.

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Casado com Priscila Reis com quem tem 3 lindos filhos. Cristão, Economista. Gosto de música, viagens, e de ler. Saiba mais AQUI.

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