Água na Teologia Bíblica

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A água na teologia bíblica tem dois aspectos que parecem contraditórios: um é vida, bênção, sinal da presença de Deus, imagem da pessoa que se deixa conduzir por Deus e por sua graça. O outro é caos, morte, destruição e ausência de Deus. Apesar de parecerem contrários, os dois decorrem da experiência vital do povo de Israel.

A água como sinal da ausência de Deus.

O povo do mar

O povo hebreu, ao contar durante muitas gerações e, finalmente, ao escrever os primeiros relatos bíblicos, habitava a terra de Canaã, depois chamada Israel e Palestina. A região é banhada de ponta a ponta pelo mar Mediterrâneo. Antes de os fenícios e gregos, e depois os romanos, praticarem a navegação, o mar era um grande mistério. As pessoas o temiam e acreditavam que nele habitassem monstros mitológicos. Até à idade média houve na Europa esse medo do mar. Os próprios conquistadores europeus do século XVI temiam os monstros! O pavor do mar revolto, do mistério que ele encerrava e da ameaça por ele representada, levou as tribos de Israel a criar uma ligação entre a sensação de medo, insegurança e impotência diante do mar e a sensação da ausência de Deus.

A presença de Deus é a harmonia e ordem na Criação.

· No relato do Gênesis, antes de Deus se manifestar ”tudo era solidão, trevas e caos e as águas cobriam o abismo”. Deus, por meio de sua comunicação criadora, organizou o caos: separou as “águas de cima” das “de baixo” e fez surgir a terra, lugar seguro para as pessoas (Gn 1,1).

· O relato do dilúvio mostra que a humanidade, não cumprindo o projeto de Deus, voltou a instalar o caos primitivo, de antes da Criação. As águas “de cima” voltaram a se misturar com as “de baixo”, como antes de Deus as ter separado. As pessoas já não tiveram mais segurança na terra para continuar vivendo (cf. Gn 6,17,24).

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A ausência de Deus é sempre associada a águas ameaçadoras.

· No livro do Êxodo, Moisés, é colocado nas águas do Nilo, o rio dos deuses pagãos que oprimiam o povo de Israel (cf. Ex .2,110).

· Na noite da libertação, da saída do território do Egito surge o mar Vermelho, abismo de águas revoltas que se fechou sobre o Faraó e o fez afundar para sempre, sepultado no caos das águas desorganizadas (Ex. 13,1714,31).

· O salmo 42 apresenta o sofrimento na vida de uma pessoa, com a imagem das águas revoltas: “Esmorece minha alma… ao fragor de vossas cataratas. Todas as vossas ondas passaram por cima de mim”.

· E o salmo 69 acrescenta: “Subiram-me as águas até o pescoço.”

· E o salmo 87: “Colocaste-me nas trevas e em um abismo profundo e todas as vossas vagas arrebentaram-se contra mim”.

· Os profetas usam inúmeras vezes a mesma imagem para advertir os ímpios de que Deus os abandonará.

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A água como sinal da presença de Deus.

· O Espírito, a comunicação criadora de Deus paira suavemente sobre as águas, organiza o caos e as faz produzir vida (cf. Gn 1,122).

· Deus intervém no caos das águas, para salvar quem nele confia – arca de Noé, Aron: as duas mãos de Deus, uma sobre a outra, salvaram o justo e os inocentes. O “sopro sobre a terra”, “fecha as fontes do abismo” (cf. Gn 6,17,24).

· Arco-íris: sinal da aliança de Deus com a humanidade – a luz do sol traspassando a água da chuva (cf. Gn 9,817).

· Tebá a cestinha de Moisés, em forma de duas mãos, uma sobre a outra (máximo cuidado e proteção). O nome egípcio do príncipe Moisés é interpretado pela teologia de Israel como “Salvo das águas”, isto é, retirado por Deus do caos da sociedade corrupta e injusta do Egito (cf. Ex .2,110).

· No mar Vermelho, Deus pede a Moisés que estenda a mão e as águas se organizam, possibilitando que o povo passe na terra segura (Ex. 13,1714,31).

· No deserto, Deus promete ao povo, por meio de Moisés: “Abençoarei o vosso pão e a vossa água” (cf. Ex 23,25).

· O rio Jordão também se abriu para a passagem da arca da aliança e a entrada do povo em Canaã (Js3,1417).

· O rei Davi, ao vencer uma batalha contra os filisteus, agradece a Deus dizendo: “Estendestes vossa mão para pegar-me e tirar-me das águas caudalosas” (2Sm 22,17).

· A oração do justo libertado, no salmo 144, diz: “Estendeis do alto a vossa mão e me salvais das muitas águas”.

· O salmo 65 compara a chuva com a visita de Deus: “Visitais a terra e a fazeis transbordar. Copiosamente a enriqueceis com uma torrente divina cheia de água”. Embebem-se as pastagens do deserto e as colinas se enchem de alegria”!

· O salmo 72 compara o Messias com a chuva: “Ele descerá como a chuva sobre o feno, como os aguaceiros que irrigam a terra”.

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O povo do deserto

O povo que vivia em regiões desérticas e semiáridas, com pouquíssimas fontes e ausência de chuva na maior parte do ano, sonhava com a água. Os rios, as fontes, a chuva, os córregos, eram sinal da máxima bênção de Deus. A água era a utopia do mundo preparado por Deus para todos os seres vivos.

· O paraíso terrestre é banhado por quatro rios (cf. Gn. 2:8-15).

· Ló, sobrinho de Abraão, ao chegar a Canaã, viu que a região do rio Jordão era toda irrigada como um jardim de Deus (cf. Gn.13:10).

· Na bênção a seu filho José, Jacó proclama: “José é uma planta viçosa junto a uma fonte, cujos galhos ultrapassam os muros” (cf. Gn 49,22).

· A bênção de Balaão ao povo no deserto: “Como são belos teus tabernáculos,   Jacó, tuas tendas, ó Israel! Como torrentes, se dilatam, como jardins ao longo de um rio, como Aloés plantados pelo Senhor e cedros junto às águas! A água entorna-se de seus baldes e sua descendência crescerá em águas abundantes” (Nm 24,78).

· O salmo 46, ao falar de Jerusalém, diz: “Um rio e seus canais alegram a cidade de Deus”.

· Isaías diz que na vinda do Messias: “O coxo saltará e a língua do mudo se desatará em cânticos, porque as águas jorram do deserto e rios correm na estepe. O areal se converterá em lago e o solo calcinado, em mananciais de água” (cf. 35, 67).

· Os míseros, os pobres, que buscam água e não encontram, que têm a língua ressequida pela sede, eu mesmo, o Senhor, cuidares deles. Eu não os abandonarei!” (cf.41,17).

O justo, que vive o projeto de Deus, é como uma árvore à beira da água.

Uma das imagens mais freqüentes do justo é a árvore plantada à beira da água, cujas raízes afundam sempre mais e tornam a árvore mais frondosa e frutífera.

· Feliz aquele que segue a lei divina. É como a árvore plantada à beira da água, que dá fruto e cujas folhas nunca murcham (Sl 1).

· O Senhor é meu pastor e me conduz às águas tranqüilas. (Sl 23).

· O coração de um rei é o rio de água nas mãos de Deus (Pr 21, 1).

· Isaías prevê o mundo futuro, quando “O conhecimento do Senhor encherá a terra como as águas enchem o mar”. (Is 11,9).

· Todas as semanas, na bênção do shabat a mãe da família judaica é chamada “Videira cheia de frutos e plantada à margem da água”. É a bênção do profeta Ezequiel sobre o príncipe de Israel: (cf. Ez 19,10).

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· Diz o Provérbios: “Águas profundas são as palavras do justo: regato jorrante, fonte de vida”. (cf. Pr 18, 4).

· Isaías, falando do tempo messiânico: Todos vós que tendes sede, acorrei á água! (cf. Is55,1). O Senhor saciará os teus desejos e te tornará uma fonte viva, cujas águas jamais se esgotam. (58,11).

· Deus, por meio de Jeremias, apresenta-se como “fonte de água viva” (cf. Jr2,13).

 

A graça de Deus, em Jesus Cristo é fonte de água viva e eterna.

Jesus Cristo é o homem novo, o filho da nova criação.

No Novo Testamento, a teologia da água é relida, à luz da ressurreição, e recebe uma dimensão escatológica: a graça de Deus que vem de Jesus Cristo. É água que jorra para a vida eterna.

· O evangelho de Mateus coloca Jesus como o homem novo, o reinício, a nova criação: O Espírito paira sobre Jesus ao ser ele mergulhado na água do Jordão. E Deus Pai o chama “meu filho amado” (3,1617).

· Da mesma forma como a primeira palavra de Deus, comunicadora de vida, é pronunciada, no princípio, sobre as águas, também a primeira palavra transformadora de Jesus é pronunciada sobre a água, para que dela brote a plena e completa alegria: o melhor vinho! (cf. Jo 2 111).

· No diálogo com a samaritana, Jesus dá o passo seguinte em relação à teologia do Primeiro Testamento: “A fonte de água viva jorra para a vida eterna” (cf. Jo 4,14).

· E confirma “Quem crê em mim, do seio dele, como diz a escritura, jorrarão rios de água viva”. E o Evangelho continua: “Dizia isso do espírito Santo que deviam receber” (cf. Jo 7,3839).

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· Paulo comentando, aos coríntios, a passagem bíblica da água que brota da rocha, diz que Cristo é o rochedo espiritual do qual agora todos podem beber da água espiritual (cf. 1Cor.10,4).

· O Apocalípse, descrevendo a figura de Cristo Ressuscitado diz que “emitia um fragor de muitas ondas” (1,15).

A eternidade é figurada pela cidade de Deus, na qual corre um grande rio

· João vê o céu aberto e ouve um rumor de muitas águas, como harpistas que dedilham suas harpas (cf. Ap 14,2).

· O louvor de toda a humanidade a Deus é como o rumor de águas caudalosas (cf. Ap 19,6).

· No novo céu e na nova terra, a cidade de Deus é banhada por um rio de água viva e quem tem sede será por Deus saciado com a água da vida (cf. Ap 21 6. 22,1).

· A última expressão da narrativa que descreve a eternidade e a comunhão com Deus é: “Quem tem sede, venha! Quem desejar, receba gratuitamente da água da vida! (cf. Ap 22,17).

A Bíblia é aberta e fechada com a teologia da água.

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Fonte: Maria Inês Carniato – Paulinas. AEC – Rio de janeiro.